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Reconsideração da seleção de exercícios com EMG: fraca concordância entre a classificação de exercícios para o quadril com EMG dos glúteos e a força muscular
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PONTOS CHAVE
- A eletromiografia de superfície (sEMG) é frequentemente considerada um indicador da eficácia do exercício, mas essa ideia tem sido questionada.
- Este estudo comparou a sEMG e a força muscular estimada do glúteo máximo e do glúteo médio durante oito exercícios de quadril realizados por 10 a 14 futebolistas do sexo feminino.
- As correlações entre a amplitude da sEMG e as forças musculares estimadas variaram entre 0,29 e 0,56, sugerindo que a sEMG não deve ser usada isoladamente na seleção de exercícios.
INTRODUÇÃO E OBJETIVOS
A eletromiografia de superfície (sEMG), uma medida da ativação muscular, é frequentemente considerada um indicador indireto da eficácia com que os exercícios ativam os músculos. Por exemplo, duas revisões sistemáticas identificaram um total de 71 estudos que avaliaram a sEMG dos músculos glúteos (1,2). Apesar da popularidade da sEMG, a sua validade como preditor de adaptações musculares tem sido questionada. Uma revisão de 2018 (3) e um comentário publicado em 2022 (4) argumentaram que a sEMG não prevê ganhos de força ou hipertrofia.
Uma medida alternativa da eficácia dos exercícios pode ser a força muscular, que pode ser estimada através de modelação neuromusculoesquelética. O objetivo deste estudo foi comparar a amplitude da sEMG com a força muscular estimada do glúteo máximo e do glúteo médio durante oito exercícios de quadril. Os autores hipotetizaram que a relação entre as duas métricas seria fraca.
Os profissionais de saúde não devem depender exclusivamente da eletromiografia de superfície para selecionar exercícios destinados a ativar os músculos glúteos.
MÉTODOS
Os dados foram analisados a partir de um estudo anterior (5) com 14 futebolistas saudáveis do sexo feminino, com uma idade mediana (intervalo interquartil) de 24,1 (6,5) anos. As participantes realizaram oito exercícios comuns de prevenção e reabilitação de lesões no quadril: agachamentos com uma perna, agachamentos divididos, peso morto romeno com uma perna, elevações do quadril com uma perna, passos laterais com banda elástica, elevações de perna em decúbito lateral, elevações do quadril e pranchas laterais (ver vídeo 1 para exemplos). A maioria dos exercícios foi realizada com peso corporal e com cargas equivalentes ao máximo de 12 repetições (12RM).
Durante os exercícios, foram recolhidos dados de sEMG dos músculos glúteos, juntamente com captura de movimento tridimensional e dados de plataformas de força. Estes dados foram utilizados num modelo neuromusculoesquelético para estimar as forças musculares dos glúteos. Para as amplitudes da sEMG e para as forças musculares estimadas, foram calculados os valores normalizados de pico e médios para cada exercício e músculo. As relações entre estas métricas foram avaliadas através de correlações de Spearman e modelos lineares com efeitos mistos.
VÍDEO 1 – EXERCÍCIOS DO QUADRIL
RESULTADOS
As correlações entre os valores de pico e médios normalizados da amplitude da sEMG e as forças musculares estimadas dos glúteos variaram entre 0,29 e 0,56. A única correlação estatisticamente significativa foi entre a amplitude média normalizada da sEMG e as forças musculares estimadas do glúteo médio. As amplitudes normalizadas da sEMG explicaram entre 5% e 26% da variância nas forças musculares estimadas (ver Tabela 1).
Para ilustrar estas discrepâncias, considere os hip hikes com carga de 12RM (para o glúteo máximo) e as elevações de perna em decúbito lateral com carga de 12RM (para o glúteo médio), que apresentaram valores elevados de amplitude de sEMG, mas valores baixos de força muscular estimada. Por outro lado, os agachamentos divididos com carga de 12RM (para o glúteo máximo) e os peso morto romeno com uma perna e carga de 12RM (para o glúteo médio) apresentaram amplitudes de sEMG relativamente baixas, mas força muscular estimada elevada. Ver Figura 1.
LIMITAÇÕES
Este estudo foi limitado por uma amostra relativamente pequena de participantes (10–14), com apenas dois músculos avaliados. No entanto, a robustez das análises foi reforçada pelo grande número de repetições realizadas em vários exercícios e condições de carga, resultando em cerca de 1000 pontos de dados para análise. Dado o foco nos músculos glúteos, é necessário ter cautela ao generalizar estes resultados para outros grupos musculares.
IMPLICAÇÕES CLÍNICAS
Os profissionais de saúde muitas vezes têm a perceção de que a sEMG é um indicador válido da eficácia com que um exercício ativa um músculo para ganhos de força e hipertrofia. Como tal, podem selecionar exercícios com base no vasto conjunto de evidência que classifica os exercícios segundo os valores de sEMG para vários músculos (por exemplo, os músculos glúteos [1,2]).
Críticas recentes têm vindo a questionar estes pressupostos (3,4), e os dados do presente estudo apoiam essas preocupações. Os autores consideraram que as relações entre as amplitudes da sEMG e as forças musculares estimadas para os músculos glúteos eram “fracas” (ρ < 0,7). No entanto, vale a pena notar que um ρ de 0,7 é um critério bastante exigente. Embora este estudo tenha considerado ρ < 0,7 como fraco, outros modelos de interpretação poderiam classificar as correlações observadas — especialmente para o glúteo médio — como “moderadas”.
No geral, as amplitudes da sEMG e as forças musculares estimadas podem estar moderadamente relacionadas, mas essa relação é provavelmente mais fraca do que muitos profissionais de saúde assumem. Estes resultados sugerem que os profissionais não devem basear-se exclusivamente na sEMG para selecionar exercícios destinados a ativar os músculos glúteos. Sempre que possível, devem ser priorizados exercícios com evidência longitudinal de ganhos em força e hipertrofia. Na ausência desses dados, pode-se dar prioridade a exercícios que permitam cargas relativamente elevadas, especialmente com ênfase em comprimentos musculares mais longos (6).
+REFERÊNCIAS DE ESTUDO
MATERIAL DE APOIO
- Neto, W. K., Soares, E. G., Vieira, T. L., Aguiar, R., Chola, T. A., Sampaio, V. L., & Gama, E. F. (2020). Gluteus maximus activation during common strength and hypertrophy exercises: A systematic review. Journal of Sports Science and Medicine, 19(1), 195–203.
- Moore, D., Semciw, A. I., & Pizzari, T. (2020). A systematic review and meta analysis of common therapeutic exercises that generate highest muscle activity in the gluteus medius and gluteus minimus segments. International Journal of Sports Physical Therapy, 15(6), 856–881.
- Vigotsky, A. D., Halperin, I., Lehman, G. J., Trajano, G. S., & Vieira, T. M. (2018). Interpreting signal amplitudes in surface electromyography studies in sport and rehabilitation sciences. Frontiers in Physiology, 8, 985.
- Vigotsky, A. D., Halperin, I., Trajano, G. S., & Vieira, T. M. (2022). Longing for a longitudinal proxy: Acutely measured surface EMG amplitude is not a validated predictor of muscle hypertrophy. Sports Medicine, 52(2), 193–199.
- Collings, T. J., Bourne, M. N., Barrett, R. S., Meinders, E., Gonçalves, B. A. M., Shield, A. J., & Diamond, L. E. (2023). Gluteal muscle forces during hip focused injury prevention and rehabilitation exercises. Medicine & Science in Sports & Exercise, 55(4), 650–660.
- Schoenfeld, B. J., Grgic, J., Ogborn, D., & Krieger, J. W. (2017). Strength and hypertrophy adaptations between low- vs. high-load resistance training: A systematic review and meta-analysis. Journal of Strength and Conditioning Research, 31(12), 3508–3523.