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A dança paciente-fisioterapeuta: uma abordagem personalizada para a recuperação do LCA – um estudo qualitativo de entrevistas
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PONTOS CHAVE
- Nos estágios finais da reabilitação do ligamento cruzado anterior (LCA), pacientes com reconstrução do LCA relataram que ser vistos, ouvidos e ter o "centro do palco" no processo de reabilitação foram facilitadores positivos da recuperação do LCA.
- O cuidado centrado no paciente, da perspectiva do paciente durante a recuperação do LCA, incluiu o envolvimento do paciente e uma forte relação fisioterapeuta-paciente.
INTRODUÇÃO E OBJETIVOS
O cuidado centrado na pessoa tem sido considerado um pilar essencial da reabilitação e dos cuidados de saúde, mas a sua implementação na prática tem sido um desafio (1). Para melhorar a recuperação após a reconstrução do ligamento cruzado anterior (LCA), é essencial entender que fatores promovem um ambiente de cuidado centrado na pessoa.
Portanto, o objetivo deste estudo foi explorar a experiência de reabilitação dos pacientes a partir de uma perspetiva centrada na pessoa nos estágios finais da reabilitação do LCA (8-12 meses).
Os fisioterapeutas devem dedicar tempo e cuidado extras para implementar estratégias que promovam a relação terapêutica, pois isso parece ser a base do cuidado centrado no paciente.
MÉTODOS
Este estudo qualitativo recrutou pacientes com idades compreendidas entre os 18 e os 65 anos, inscritos num registo de fisioterapia da Suécia, que estavam entre 8 a 12 meses após a reconstrução do ligamento cruzado anterior (LCA). A amostragem intencional foi usada para garantir a representação igualitária dos pacientes em idade e sexo.
Os pacientes foram entrevistados via ZOOM em 2022, utilizando um guia de entrevista. Os pacientes foram questionados sobre a sua relação com os seus fisioterapeutas e pensamentos sobre cuidados centrados na pessoa e para fornecer exemplos disso durante a sua reabilitação. A lista de verificação Consolidated criteria for Reporting Qualitative research (COREQ) foi utilizada para garantir a transparência dos relatórios.
RESULTADOS
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14 pacientes (oito mulheres, seis homens) foram entrevistados. A idade mediana (intervalo) foi de 20 (18-57) anos, com a maioria dos doentes a receber um auto-enxerto de isquiotibiais.
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A maioria dos pacientes estava a uma mediana (intervalo) de 8 (8-12) meses após a cirurgia de reconstrução do LCA.
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Foi gerado um tema abrangente com três categorias principais e seis subcategorias, que foram relatadas na Tabela 1 (ver Tabela 1).
LIMITAÇÕES
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Questões metodológicas: Falta de detalhes sobre como a entrevista foi conduzida (por exemplo, semiestruturada), falta de coerência nos métodos (ou seja, paradigma construtivista, mas utilizando uma abordagem de análise de conteúdo descritiva).
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Perguntas de entrevista enganadoras: Seria mais fácil fazer com que os pacientes descrevessem o cuidado centrado na pessoa com as suas próprias palavras e ter uma conversa mais aberta, em vez de o definir para os pacientes. Algumas perguntas no guia de entrevista poderiam ter sido enganosas. Por exemplo, em vez de perguntar aos pacientes "o que o deixou triste", perguntar "que emoções sentiu durante a reabilitação" teria criado perguntas mais neutras.
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Transferibilidade: A pesquisa qualitativa deve sempre ser interpretada no contexto das experiências dos pacientes e das entrevistas. Portanto, os resultados podem ser exclusivos do sistema de saúde sueco, e outros pacientes com reconstrução do LCA podem ter experiências diferentes noutros sistemas de saúde. No entanto, alguns dos resultados são provavelmente transferíveis e relevantes para pacientes com lesões no LCA e perda de tempo devido à lesão.
IMPLICAÇÕES CLÍNICAS
A recuperação após a reconstrução do LCA é um caminho longo e árduo que muitas vezes exige horas de trabalho com a equipa de reabilitação, especialmente com os fisioterapeutas. Portanto, é crucial que uma relação sólida entre o paciente e o fisioterapeuta seja estabelecida.
Pesquisas crescentes têm apoiado a ideia de que a relação terapêutica pode influenciar os resultados da reabilitação em pacientes com lesões musculoesqueléticas (2) e traumáticas no joelho (3), e este estudo reforça estes resultados na população com LCA. Os fisioterapeutas devem dedicar tempo e cuidado extras para implementar estratégias que promovam a relação terapêutica, pois isso parece ser a base do cuidado centrado no paciente.
Embora a relação terapêutica seja um fenómeno complexo, pesquisas anteriores estabeleceram que o envolvimento, o vínculo e a conexão são três pilares necessários para estabelecer uma forte relação terapêutica (4). Este estudo forneceu alguns exemplos para facilitar a relação terapêutica. Por exemplo, os fisioterapeutas podem facilitar o envolvimento ao mostrar aos pacientes que estão empenhados na sua reabilitação, ou a conexão, criando um fluxo de comunicação aberto e honesto.
O cuidado centrado no paciente vai além de simplesmente ter o paciente como o "protagonista", mas requer o envolvimento ativo e o interesse do fisioterapeuta responsável pelo tratamento. Como tal, os cuidados centrados no doente podem ser um termo impróprio e talvez os fisioterapeutas devam encarar esta díade como uma abordagem centrada no doente-fisioterapeuta/clínico, em que ambas as partes têm de se sentar à mesa para uma reabilitação bem sucedida. Também não se trata de ambas as partes se encontrarem no meio, mas sim de dedicar algum tempo a perceber quando é que o doente toma as rédeas da reabilitação ou quando é que o fisioterapeuta pode liderar.
Este estudo recorda-nos que a simples abordagem dos resultados físicos não se baseia em evidências. Os fisioterapeutas são vistos não só como especialistas, mas também como mentores, guias e apoiantes. É altura de aceitarmos que o componente central e o aspeto único de trabalhar com um doente com uma lesão do LCA é o facto de termos tempo (talvez anos) para construir uma relação. Por isso, não nos importemos de partilhar esta viagem desafiante com os nossos pacientes e não sejamos uma audiência passiva, mas façamos parte do espetáculo!
+REFERÊNCIAS DE ESTUDO
MATERIAL DE APOIO
- JESUS, T. S., PAPADIMITRIOU, C., BRIGHT, F. A., KAYES, N. M., PINHO, C. S. & COTT, C. A. 2021. Person-Centered Rehabilitation Model: Framing the Concept and Practice of Person-Centered Adult Physical Rehabilitation Based on a Scoping Review and Thematic Analysis of the Literature. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation, 106-120.
- KINNEY, M., SEIDER, J., BEATY, A. F., COUGHLIN, K., DYAL, M. & CLEWLEY, D. 2018. The impact of therapeutic alliance in physical therapy for chronic musculoskeletal pain: A systematic review of the literature. Physiotherapy Theory and Practice, 1-13.
- TRUONG, L. K., MOSEWICH, A. D., MICIAK, M., LOSCIALE, J. M., LI, L. C. & WHITTAKER, J. L. 2024. Social support and therapeutic relationships intertwine to influence exercise behavior in people with sport-related knee injuries. Physiotherapy Theory and Practice, 1-14.
- MICIAK, M., MAYAN, M., BROWN, C., JOYCE, A. S. & GROSS, D. P. 2019. A framework for establishing connections in physiotherapy practice. Physiotherapy Theory and Practice, 35, 40-56.