- A minha Biblioteca
- 2026 Edições
- Edição 41
- Treino de resistência pesado e lento…
Treino de resistência pesado e lento combinado com educação do doente em indivíduos com tendinopatia glútea: um estudo de viabilidade
Ouve esta revisão
minutes
PONTOS CHAVE
- Uma intervenção de treino de resistência pesada e lenta, combinada com educação do doente, é segura e viável em doentes com tendinopatia glútea, em termos de adesão, desistências, eventos adversos e tolerância à dor lateral do quadril.
- Vários participantes apresentaram alterações significativas na intensidade da dor lateral do quadril e na gravidade da incapacidade.
- Foram observadas melhorias na força muscular do quadril, sendo notáveis os ganhos na força dos abdutores, dado o défice conhecido em doentes com tendinopatia glútea.
INTRODUÇÃO E OBJETIVOS
A tendinopatia glútea (TG) é uma condição persistente e incapacitante, caracterizada por dor lateral do quadril (DLQ) de moderada a intensa (1-3). A TG é uma das tendinopatias do membro inferior mais comuns na prática clínica, afetando até 24% das mulheres de meia-idade. O exercício é atualmente o tratamento de primeira linha recomendado para a TG, sendo geralmente combinado com educação do doente (1). O treino de resistência pesado e lento (TRPL), que envolve contrações musculares isotónicas de alta carga e baixa velocidade, demonstrou melhorias significativas na dor e na função física em tendinopatias do tendão de Aquiles e patelar. No entanto, na TG, um programa tradicional de TRPL baseado no número máximo de repetições (RM), com progressão linear da carga, ainda não foi estudado. Por isso, a investigação preliminar sobre a viabilidade é útil antes de iniciar um ensaio clínico de maior dimensão.
O objetivo principal deste estudo foi investigar a viabilidade de combinar TRPL com educação do doente com TG, em termos de adesão, desistências, eventos adversos e tolerância à dor lateral do quadril (DLQ). Um objetivo secundário foi avaliar alterações na DLQ, nos desfechos relatados pelos doentes, no desempenho funcional e na força muscular do quadril.
O exercício de abdução do quadril, apesar de sobrecarregar mais os tendões sintomáticos, apresentou ainda assim elevada adesão, sugerindo que é bem tolerado e frequentemente preferido por pessoas com tendinopatia glútea.
MÉTODOS
Desenho do estudo: Ensaio de viabilidade intervencional, com um único grupo.
Participantes: Foram incluídos no estudo participantes que cumpriam os seguintes critérios: (1) idade ≥18 anos; (2) dor lateral do quadril (DLQ) persistente há mais de seis semanas; (3) sensibilidade à palpação do grande trocânter; (4) reprodução da DLQ durante testes clínicos diagnósticos (apoio unipodal de 30 segundos e abdução resistida do quadril); e (5) amplitude de movimento passiva normal do quadril.
Intervenção: Os participantes completaram 30 sessões ao longo de 12 semanas (cinco sessões a cada duas semanas), alternando entre duas e três sessões semanais. Cada sessão consistiu num aquecimento de 10 minutos em ergómetro submáximo e cinco exercícios direcionados aos principais músculos do quadril, com ênfase na ativação dos abdutores do quadril agonistas ou sinergistas (ver Vídeo 1). Na primeira sessão, os participantes realizaram uma série de cada exercício para determinar as cargas de treino. Nas sessões subsequentes, as cargas foram ajustadas para atingir uma repetição máxima de 12 (12RM). Os participantes receberam educação sobre fatores específicos da TG que podiam agravar ou aliviar a dor.
VIDEO 1 – INTERVENÇÃO DE TREINO COM RESISTÊNCIA PESADA E LENTA
Desfechos de viabilidade A viabilidade da intervenção foi avaliada através da adesão ao tratamento (adesão às sessões e adesão ao programa), número de desistências, eventos adversos e tolerância à dor lateral do quadril (DLQ).
Desfechos secundários No seguimento, os participantes classificaram a perceção de alteração da condição do quadril em relação à dor, atividades diárias e qualidade de vida, utilizando uma escala de Avaliação Global de Alteração. A intensidade da dor lateral do quadril foi medida com uma Escala Numérica de 11 pontos (EN) para dor noturna e durante os testes funcionais. A incapacidade foi avaliada com o Victorian Institute of Sport Assessment–Gluteal (VISA-G). O desempenho funcional foi medido através do teste de subida de escadas de nove degraus cronometrado e do teste de elevação da cadeira de trinta segundos. A força máxima isométrica dos músculos do quadril foi medida utilizando um dinamómetro isocinético.
RESULTADOS
Desfechos de viabilidade A adesão às sessões variou entre 98 e 100%, superando a adesão observada em estudos musculoesqueléticos semelhantes. A elevada adesão à intervenção (programa) indica que os participantes não só compareceram às sessões, como também seguiram de forma rigorosa o protocolo de exercícios prescrito. A taxa de desistência foi de 5%, considerada baixa quando comparada com os 0-33% relatados em estudos semelhantes. Os eventos adversos mais frequentes foram dor ou desconforto no joelho e na virilha. A tolerância mediana à dor (ou seja, dor inexistente ou tolerável) foi de 100% em todos os três momentos avaliados (antes das sessões, durante o TRPL e 24 horas após as sessões). A trajetória da tolerância à DLQ indica um aumento gradual ao longo do tempo na proporção de participantes que não experienciaram dor lateral do quadril antes das sessões, durante o TRPL e 24 horas após as sessões.
Desfechos funcionais e de força As melhorias observadas em todos os desfechos secundários justificam uma investigação mais aprofundada num futuro ensaio clínico randomizado que avalie os efeitos do TRPL na TG. Vários participantes ultrapassaram os limiares de alterações mínimas importantes na dor lateral do quadril (DLQ), e as alterações no VISA-G corresponderam a efeitos de grande magnitude. Foram observadas melhorias na força muscular do quadril, sendo notáveis os ganhos na força dos abdutores, dado o défice conhecido em doentes com TG. Os participantes reduziram o tempo no teste de subida de escadas de nove degraus em média 0,8 segundos e aumentaram o número de repetições no teste de elevação da cadeira de trinta segundos em média 2,3.
LIMITAÇÕES
É necessária cautela na interpretação destes resultados, uma vez que este estudo foi um ensaio de viabilidade. A ausência de um grupo de controlo passivo impede a inferência causal, tornando difícil distinguir entre os efeitos do tratamento, efeitos placebo, fatores contextuais e regressão à média. A ausência de cegamento entre participantes, treinadores e avaliadores dos testes poderá ter introduzido viés de desempenho. Por fim, a amostra poderá refletir uma população altamente motivada a melhorar a sua condição, introduzindo um potencial viés de seleção.
IMPLICAÇÕES CLÍNICAS
Este estudo demonstra que uma intervenção de TRPL combinada com educação do doente, incluindo exercícios isotónicos de abdução do quadril com carga externa progressiva, é segura e viável em doentes com TG. A elevada adesão, a baixa taxa de desistência e a boa tolerância à dor lateral do quadril (DLQ) justificam e fornecem informações para um futuro ensaio clínico randomizado, devidamente dimensionado, que investigue a eficácia desta intervenção na TG.
A elevada adesão ao programa indica ainda que os participantes não só compareceram às sessões, como seguiram de forma rigorosa o protocolo de exercícios prescrito. De forma notável, o exercício de abdução do quadril, apesar de sobrecarregar mais os tendões sintomáticos apresentou, ainda assim uma das maiores taxas de adesão entre todos os exercícios do programa, sugerindo que pode ser um exercício tolerável e preferível para doentes com TG. A descontinuação do tratamento não esteve diretamente relacionada com a intervenção, mas sim com a falta de tempo, uma barreira comum à reabilitação baseada em exercício em condições musculoesqueléticas, que deve ser considerada pelos clínicos no tratamento de doentes com TG.
A maioria dos eventos adversos observados no estudo foi transitória e de curta duração, provavelmente refletindo respostas típicas em indivíduos não habituados ao exercício. No entanto, sintomas no joelho e na virilha foram frequentes durante a adução do quadril. Considerando que este exercício tem relevância potencialmente limitada na gestão da TG, poderá ser reconsiderado ou substituído por alternativas mais toleráveis em futuros programas. Os resultados do estudo demonstram que a dor foi bem tolerada, com quase todos os participantes a relatar dor inexistente ou tolerável antes, durante e 24 horas após as sessões de TRPL. De facto, os relatos de ausência de DLQ aumentaram gradualmente ao longo do tempo nos três momentos avaliados.
+REFERÊNCIAS DE ESTUDO
MATERIAL DE APOIO
- Mellor R, Grimaldi A, Wajswelner H, et al. Exercise and load modification versus corticosteroid injection versus 'wait and see' for persistent gluteus medius/minimus tendinopathy (the LEAP trial): a protocol for a randomised clinical trial. BMC Musculoskelet Disord 2016;17:196 [published Online First: 20160430]
- Nasser AM, Fearon AM, Grimaldi A, et al. Outcome measures in the management of gluteal tendinopathy: a systematic review of their measurement properties. Br J Sports Med 2022;56(15):877-87 [published Online First: 20220408]
- Grimaldi A, Ganderton C, Nasser A. Gluteal tendinopathy masterclass: Refuting the myths and engaging with the evidence. Musculoskelet Sci Pract 2025;76:103253 [published Online First: 20250103]