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Arquitetura e morfologia dos músculos isquiotibiais após 6 semanas de intervenção com levantamento terra romeno com ênfase excêntrica ou exercício nórdico para os isquiotibiais

Revisão realizada por Adam Johnson info

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PONTOS CHAVE

  1. O levantamento terra romeno (Deadlift Romeno) é um exercício que pode provocar as mesmas alterações arquitetónicas desejáveis na musculatura dos isquiotibiais que o exercício nórdico para isquiotibiais.
  2. Duas semanas de período de interrupção do treino é suficiente para reverter várias dessas alterações aos níveis pré-intervenção.
  3. As alterações regionais na musculatura estão mais relacionadas com o indivíduo que realiza o exercício do que com o próprio exercício que está a ser realizado.

INTRODUÇÃO E OBJETIVOS

Está bem documentado que as lesões nos isquiotibiais representam um grande problema tanto para os atletas como para as equipas médicas que trabalham com eles. Uma das formas de abordar esta lesão problemática é o exercício nórdico para isquiotibiais, que é amplamente estudado e reconhecido por influenciar positivamente dois fatores de risco modificáveis para lesões nos isquiotibiais.

O exercício aumenta tanto o comprimento das fibras musculares (fascículos) como diminui o ângulo de penação na cabeça longa do bíceps femoral (BFlh - Biceps Femoris Long Head), o que tem demonstrado reduzir substancialmente o risco de lesão na parte posterior da coxa (1).

Apesar desta ligação bem conhecida entre a capacidade de atuar sobre os fatores de risco, existe alguma apreensão na administração deste exercício, tanto por parte dos atletas, que associam o exercício a elevados níveis de dor muscular de início tardio (2), como por parte dos profissionais, que não consideram apropriado prescrever um exercício com posição neutra do quadril para um músculo biarticular.

O principal objetivo deste artigo foi compreender as diferenças na arquitetura e morfologia regional da cabeça longa do bíceps femoral (BFlh) após uma intervenção de 6 semanas utilizando o levantamento terra romeno (RDL- Romanian Deadlift) ou o exercício nórdico para isquiotibiais (NHE- Nordic Hamstring Exercise).

As lesões nos isquiotibiais representam um grande problema tanto para os atletas como para as equipas médicas que trabalham com eles.
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Se queremos desafiar e estimular continuamente os nossos atletas, a variedade na programação é fundamental, e este artigo contribui para apoiar a tomada de decisão relativamente à prescrição e planeamento do treino.

MÉTODOS

  • Foram recrutados para o estudo um total de 32 participantes, dos quais 17 eram do sexo masculino. Todos tinham entre 18 e 25 anos e não apresentavam historial de lesão nos isquiotibiais nos últimos seis meses. Os participantes foram distribuídos aleatoriamente para um dos dois grupos de intervenção.

  • O estudo foi realizado ao longo de um período de intervenção de seis semanas, durante o qual os participantes realizaram duas sessões de treino supervisionadas por semana, de acordo com a sua atribuição. As duas primeiras semanas foram consideradas um período de familiarização, permitindo aos participantes executar quatro séries de quatro repetições do exercício atribuído, com uma intensidade-alvo de 8-9/10, através da adição de carga externa. No caso do RDL, o peso era acrescentado à barra, enquanto que no NHE era utilizada uma placa de peso mantida ao peito, com aumentos de carga de 2,5 kg para manter a perceção de esforço desejada (RPE- rate of perceived exertion). Para demonstração em vídeo, consulte o vídeo 1.

VÍDEO 1 - EXERCÍCIO NHE E RDL https://www.youtube.com/watch?v=0sO9POavzeo&ab_channel=PhysioNetwork

  • A duração da contração excêntrica também foi controlada no protocolo, sendo de quatro segundos na primeira semana, cinco segundos na segunda semana e seis segundos durante as últimas quatro semanas. Este exercício para a parte inferior do corpo foi realizado em paralelo com um programa padronizado para o corpo todo.

  • Após a conclusão do programa de seis semanas, houve um período de duas semanas de período de interrupção do treino, após o qual todas as medidas de resultado foram reavaliadas.

RESULTADOS

  • Foi observada uma boa adesão em ambos os grupos, com o grupo RDL a atingir 95% e o grupo NHE 94%.

  • O comprimento dos fascículos foi monitorizado em três momentos e, em ambos os grupos de intervenção, registou-se um aumento significativo do comprimento dos fascículos da cabeça longa do bíceps femoral desde a linha de base até ao pós-intervenção. Seguiu-se uma diminuição após o período de pausa. O mesmo padrão foi observado no ângulo de penação, em que ambas as intervenções provocaram uma diminuição desejável deste ângulo, mas que, tal como no comprimento dos fascículos, foi revertida após o período de pausa.

  • A área da secção transversal anatómica da musculatura dos isquiotibiais também aumentou em resultado das duas intervenções, tendo-se verificado uma redução após a pausa. Contudo, esta redução não regressou aos níveis pré-intervenção neste marcador objetivo específico.

LIMITAÇÕES

Uma das limitações apontadas neste estudo é que, embora os dois exercícios tenham sido equiparados em termos de intensidade e prescrição, não foram equiparados quanto à natureza da contração muscular. O exercício NHE é uma atividade puramente excêntrica, enquanto o RDL é apenas tendencialmente excêntrico, dado que os participantes têm de levantar o peso concentricamente para regressar à posição inicial do exercício. Este método de contração mista poderá ter proporcionado uma carga menor ao grupo que realizou o RDL em comparação com o grupo do NHE.

Outra limitação do estudo, destacada pelos autores, é a duração do mesmo, sendo possível que seis semanas não tenham sido suficientes para compreender verdadeiramente as alterações que podem ser alcançadas através da intervenção.

IMPLICAÇÕES CLÍNICAS

Este estudo apresenta potenciais implicações clínicas importantes e aplicação prática para os profissionais que trabalham em áreas onde as lesões nos isquiotibiais representam um grande desafio. Sabemos que a incidência destas lesões está a aumentar no futebol de elite (3), pelo que é fundamental que, enquanto profissionais, compreendamos plenamente os benefícios potenciais de todos os exercícios que prescrevemos aos nossos pacientes.

A principal força deste estudo reside na prescrição de exercício bem estruturada e progressiva, garantindo uma sobrecarga consistente com um RPE de 8–9/10 após um período de familiarização de duas semanas. Esta abordagem é essencial para alcançar os benefícios observados, como a redução do ângulo de penação, o aumento do comprimento dos fascículos e o aumento da área de secção transversal.

A execução técnica do exercício, particularmente a ênfase e o controlo do tempo da contração excêntrica no RDL, foi crucial para o sucesso do estudo. A prescrição precisa do tempo sob tensão excêntrica, em vez de apenas séries e repetições, terá desempenhado um papel fundamental na obtenção dos resultados positivos.

Outro aspeto interessante deste estudo é que os autores analisaram mais profundamente do que estudos anteriores, ao avaliar as diferenças regionais dentro da musculatura. A constatação de diferenças individuais, mais do que diferenças relacionadas apenas com o exercício, destaca ainda mais o desafio que temos enquanto profissionais para garantir que os nossos pacientes recebem a intervenção correta. Como este estudo demonstra, devido à arquitetura e composição muscular únicas, alguns indivíduos apresentam adaptações diferentes ao mesmo estímulo.

A última conclusão importante deste estudo é a rapidez com que todas as adaptações fisiológicas foram revertidas após um período de pausa no treino. Os autores demonstraram que as melhorias no comprimento dos fascículos e no ângulo de penação obtidas após uma intervenção de seis semanas foram praticamente perdidas em apenas duas semanas de pausa.

Isto reforça a utilidade do RDL como uma ferramenta igualmente eficaz para provocar alterações arquitetónicas nos isquiotibiais. Se quisermos desafiar e estimular continuamente os nossos atletas, a variedade na programação é fundamental, e este artigo contribui para apoiar a tomada de decisão na prescrição e planeamento do treino.

+REFERÊNCIAS DE ESTUDO

Crawford S, Sandberg C, Vlisides J, Thompson Q, Mosiman S, Heidersheit B, Hickey J (2025). Hamstrings Muscle Architecture and Morphology Following 6 Weeks of an Eccentrically-Biased Romanian Deadlift or Nordic Hamstring Exercise Intervention. Medicine & Science in Sports and Exercise, Epub ahead of print.

MATERIAL DE APOIO

  1. Timmins, R.G., Bourne, M.N., Shield, A.J., Williams, M.D., Lorenzen, C. & Opar, D.A. (2016). Short biceps femoris fascicles and eccentric knee flexor weakness increase the risk of hamstring injury in elite football (soccer): A prospective cohort study. British Journal of Sports Medicine, 50, 1524-1535.
  2. Chesterton, P., Tears, C., Wright, M. & Portas, M. (2020). Hamstring injury prevention practices and compliance of the Nordic hamstring program in English professional football. Translational Sports Medicine, 4(2), 214-222.
  3. Ekstrand, J., Bengtsson, H., Walden, M et al. (2022). Hamstring injury rates have increased during recent seasons and now constitute 24% of all injuries in men’s professional football: the UEFA Elite Club Injury Study from 2001/02 to 2021/22. British Journal of Sports Medicine, 57(5), 292-298.