Avaliação da tontura cervicogénica 101

10 - minutos de leitura Publicado em Head
Escrito por Dr Jahan Shiekhy info

A tontura cervicogénica (por vezes chamada vertigem cervical) é uma condição em que a disfunção da coluna cervical provoca sintomas como: dores no pescoço, tonturas, náuseas e até visão turva. Neste blogue, vamos abordar a avaliação da tontura cervicogénica proprioceptiva, em que a entrada aferente cervical anormal leva a esses sintomas. Note-se que outras patologias, como a insuficiência vertebrobasilar ou a disfunção do sistema vestibular, podem causar sintomas semelhantes, pelo que parte da sua avaliação deve incluir o rastreio destas patologias.

Se quiser ver como um especialista de renome mundial avalia a vertigem cervicogénica, não deixe de consultar o Curso Prático de Julia Treleaven, no qual baseei este blogue. Com o Curso Prático, pode ver exatamente como os melhores especialistas avaliam e tratam condições específicas – para que se possa tornar, mais rapidamente, um melhor clínico. Saiba mais AQUI.

 

Exame Subjetivo

Uma entrevista eficiente com o paciente é o primeiro passo para diferenciar a causa dos sintomas. As principais questões a colocar relacionam-se com a descrição dos sintomas, padrões temporais e fatores desencadeantes.

Descrição dos sintomas

Normalmente, a disfunção proprioceptiva provoca instabilidade e tonturas leves, mas não sintomas como “a sala está a girar”, o que provavelmente indica uma disfunção vestibular. Outros sintomas relacionados com a propriocepção podem ser náuseas, sensibilidade à luz e visão turva. Por outro lado, sintomas como vómitos, sensibilidade ao ruído e visão dupla têm provavelmente outras causas.

Padrão temporal

Geralmente, a disfunção proprioceptiva leva a sintomas que duram minutos e que aumentam e diminuem, não são constantes ou muito breves (ou seja, segundos).

Fatores desencadeantes

Normalmente, os fatores desencadeantes das tonturas estão correlacionados com a dor cervical concomitante que os doentes sentem (por exemplo, uma determinada postura que provoca simultaneamente tonturas e dor cervical). Por outro lado, os sintomas desencadeados por espirros, tosse ou mudar de posição estão provavelmente relacionados com causas não-proprioceptivas.

Com base no exame subjetivo, podemos direcionar melhor a nossa avaliação e determinar a necessidade de uma avaliação mais aprofundada por outro profissional médico.

Para ver o passo-a-passo completo de uma avaliação subjetiva especializada, assista ao vídeo do Curso Prático da Julia AQUI.

 

Exame Objetivo

Na seção objetiva, examinamos a função do ombro, o equilíbrio, a coordenação, a amplitude de movimentos, a mobilidade articular e o controlo motor da coluna cervical.

Função do ombro

No que diz respeito ao ombro, verificamos se existem assimetrias e padrões de movimento aberrantes das omoplatas. As assimetrias posturais, como o aumento da rotação anterior, podem ser observadas no lado dos sintomas. Em seguida, para movimentos como a flexão do ombro, examinamos a qualidade do movimento escapular e a reprodução dos sintomas. Por último, carregamos o ombro, avaliando tanto o controlo motor como a reprodução dos sintomas.

Pode ver como Júlia avalia o controlo motor escapular num caso de dor cervical unilateral neste vídeo do seu curso Prático.

Clique em configurações “legendas” Português para assistir com legendas em português.

Equilíbrio

A avaliação do equilíbrio ajuda-nos a acompanhar o progresso e a distinguir entre disfunção vestibular e proprioceptiva. Em primeiro lugar, o paciente assume uma base de apoio estreita com os olhos fechados. Em caso de disfunção proprioceptiva, os pacientes podem apresentar uma maior oscilação anterior-posterior, enquanto que, em caso de disfunção vestibular, podem apresentar uma maior oscilação lateral. De seguida, desafiamos o paciente a manter uma postura em tandem com os olhos fechados.

Para o equilíbrio dinâmico, começamos por observar a marcha com rotações da cabeça e acenos de cabeça, verificando a reprodução dos sintomas e a sua capacidade de andar em linha reta. Para desafiar o sistema vestibular, o doente repete a marcha, mas efetua esses movimentos de cabeça rapidamente.

 

Coordenação da cabeça, olhos e pescoço

Ao avaliar a coordenação da cabeça, do pescoço e dos olhos, procuramos a reprodução de sintomas, a amplitude de movimentos e a capacidade de realizar cada tarefa.

Coordenação tronco-cabeça

O teste de coordenação tronco-cabeça examina a capacidade do doente para mover a cabeça e o tronco, independentemente um do outro. O paciente mantém o olhar e a cabeça virados para a frente enquanto roda lentamente o tronco de um lado para o outro. Este teste altera a entrada aferente cervical sem perturbar o sistema vestibular.

Neste vídeo do Curso Prático de Júlia, é demonstrado como realizar este teste.

Clique em configurações “legendas” Português para assistir com legendas em português.

Coordenação olho-cabeça

O teste de coordenação olho-cabeça examina a capacidade do paciente em mover os olhos e a cabeça, independentemente um do outro. Segurando um marcador ao lado do paciente, este olha lateralmente apenas com os olhos (sem movimento da cabeça) e, em seguida, mantendo o olhar fixo no marcador, vira a cabeça na direção do marcador. Isto é repetido no lado contralateral e para a flexão e extensão.

Estabilidade do olhar

O teste de estabilidade do olhar avalia a capacidade de manter os olhos num objeto fixo enquanto a cabeça se move de forma independente. Primeiro, seguramos um marcador à frente do paciente. Depois, enquanto mantém os olhos fixos no marcador, o paciente vira a cabeça para a direita e para a esquerda. O paciente deve ser capaz de atingir 45 graus de rotação em cada direção.

Aqui neste vídeo do Curso Prático da Júlia, pode ver a demonstração deste teste.

Clique em configurações “legendas” Português para assistir com legendas em português.

Torção cervical de perseguição suave

Efetuamos o teste de torção do pescoço com perseguição suave em duas etapas para nos ajudar a diferenciar entre causas cervicais e vestibulares dos sintomas. Primeiro, mantendo a cabeça neutra, movemos um marcador para a direita e para a esquerda a 20 graus em cada direção, enquanto o paciente segue o marcador apenas com os olhos (sem rodar a cabeça). Depois, efetuamos o mesmo teste, mas com o tronco do paciente rodado num ângulo de 45 graus. Rodar o tronco num ângulo roda a coluna cervical, alterando assim a entrada aferente.

Este teste em duas etapas pode ser visto no vídeo abaixo, do Curso Prático de Júlia.

Clique em configurações “legendas” Português para assistir com legendas em português.

Torção sustentada

O teste de torção sustentada é outro teste de duas partes que nos ajuda a diferenciar entre disfunção cervical e vestibular. Primeiro, o terapeuta mantém a cabeça do paciente imóvel e, com os olhos fechados, o paciente roda o tronco para um lado. Mantém-se assim durante 30 segundos. O passo seguinte é rodar o tronco e a cabeça em conjunto, com os olhos fechados e manter essa posição durante 30 segundos.

Diferenciação cabeça-pescoço

O teste de diferenciação cabeça-pescoço ajuda-nos a diferenciar melhor a disfunção cervical da disfunção vestibular. Neste teste, o terapeuta mantém a cabeça do paciente imóvel e, com os olhos fechados, roda o tronco de um lado para o outro. De seguida, com os olhos fechados, o terapeuta roda a cabeça e o tronco juntos de um lado para o outro.

Neste vídeo do seu Curso Prático, Júlia mostra como associar o teste de torção sustentada ao teste de diferenciação cabeça-pescoço.

Clique em configurações “legendas” Português para assistir com legendas em português.

Sensação de erro de posição da articulação cervical

Em seguida, examinamos a propriocepção cervical através do teste de perceção de erro da posição da articulação cervical. Neste exame, o paciente tem um ponteiro laser preso à cabeça e centra o laser num alvo. Depois, com os olhos fechados, roda a cabeça para um lado e tenta regressar à posição inicial. O teste é repetido para flexão e extensão.

Sentido do movimento cervical

Por fim, examinamos o sentido do movimento cervical, em que o paciente utiliza um ponteiro laser preso à cabeça para seguir uma forma em “X” desenhada na parede. O ideal é ter menos de 10 desvios da linha e efetuar o teste em menos de 25 segundos.

 

Amplitude de movimento

Quando examinamos a amplitude de movimento cervical, estamos a analisar tanto a quantidade como a qualidade. Por exemplo, em doentes com fraqueza dos flexores cervicais profundos, podem utilizar excessivamente os músculos esternocleidomastóideos para passar da extensão à flexão. Também queremos verificar como a posição da escápula afeta o movimento do pescoço. Por exemplo, podemos verificar se a rotação manual da escápula para cima melhora a amplitude de movimento do pescoço.

Mobilidade das articulações

A próxima consideração é a avaliação da mobilidade articular da coluna cervical, da coluna torácica e das costelas. Neste caso, estamos a analisar a rigidez das articulações, o espasmo/guarda muscular e a reprodução dos sintomas.

Controlo motor

A parte final da nossa avaliação examina o controlo motor dos flexores e extensores cervicais.

Controlo motor dos flexores

Em primeiro lugar, pedimos ao paciente que efetue a flexão craniocervical em supino. Em seguida, verificamos a mecanossensibilidade neural, fazendo-o realizar a flexão craniocervical com o ombro abduzido e depois com o quadril fletido.

O passo seguinte é utilizar o biofeedback, colocando uma braçadeira de pressão arterial bombeada a 20 mmHg sob o pescoço do paciente. De seguida, o paciente faz uma flexão craniocervical, tentando atingir 22 mmHg. Continua a efetuar a flexão craniocervical sequencialmente, até atingir 24, 26, 28 e finalmente 30 mmHg. Verifica-se a capacidade de realizar cada passo e se compensa através da ativação dos músculos superficiais do pescoço.

Controlo motor dos extensores

Em posição quadrúpede ou em decúbito ventral sobre os cotovelos, podemos avaliar o controlo motor extensor cervical, tal como demonstrado por Júlia neste vídeo do seu Curso Prático.

Clique em configurações “legendas” Português para assistir com legendas em português.

 

Conclusão

A vertigem cervicogénica é uma patologia complexa com múltiplas causas, incluindo o sistema propriocetivo cervical. Após a avaliação subjetiva, avaliamos:

  • Função do ombro
  • Equilíbrio estático e dinâmico
  • Coordenação da cabeça, dos olhos e do pescoço
  • Amplitude de movimento da coluna cervical
  • Mobilidade articular da coluna cervical, torácica, coluna vertebral e costelas
  • Controlo motor

Utilizando a estrutura aqui descrita, é possível avaliar a contribuição do sistema propriocetivo, identificar as deficiências a tratar e determinar a necessidade de encaminhamento.

Se quiser ver exatamente como a Júlia e outros especialistas de topo avaliam e tratam doenças comuns, não se esqueça de consultar os nossos Cursos Práticos AQUI.

👩‍⚕️Queres uma maneira mais fácil de desenvolver as tuas competências de avaliação e de tratamento?

🙌 Os nossos cursos práticos são a solução perfeita

🎥 Eles permitem ver como os melhores especialistas avaliam e tratam condições específicas

💪 Tornar-te-ás de forma mais rápica um melhor profissional

preview image

Não te esqueças de compartilhar este blog!

Deixa um comentário

Se tiveres alguma questão, sugestão ou algum link de uma investigação relacionada com o tema, partilhe abaixo!

Deves estar com o login feito para publicar ou gostar de um comentário.

Aumenta o teu Conhecimento Todos os Meses

Acede gratuitamente a blogues, infogréficos, revisões de pesquisa, podcasts e mais