Da Investigação à Prática: A Jornada de Reabilitação da Tendinopatia Glútea

9 - minutos de leitura Publicado em Quadril/Virilha
Escrito por Ashish Dev Gera info

Já desejou alguma vez que os seus doentes fossem tão pacientes quanto os tendões deles precisam de ser?

JA Jessie certamente não era. Aos 51 anos, sentia-se mais forte e em melhor forma do que nunca. Dois anos de corrida consistente e de treino de força deram-lhe confiança, energia e uns quadricípites que mereciam a sua própria página de Instagram. Mas depois surgiu aquela dor surda na lateral do quadril, primeiro após as corridas em subidas, depois durante as lunges e, finalmente, só pelo simples facto de dormir deitada sobre esse lado.

“Trabalhei demasiado para deixar que isto me afaste», disse-me ela durante a nossa primeira sessão.
E foi aí que a história dela – e a nossa jornada de reabilitação – começou”

Avaliação Subjetiva: A corredora frustrada

A Jessie descreveu uma dor na face lateral do quadril que começou de forma insidiosa há cerca de dois meses. Inicialmente, era apenas uma “rigidez pós-corrida”, mas, na altura em que veio à consulta, mal conseguia deitar-se sobre o lado esquerdo sem desconforto. Tinha reduzido a corrida e trocado os agachamentos por dias de treino de membros superiores, mas continuava a sentir-se bloqueada. Sem dores nas costas, sem parestesias (formigueiro) e sem suores noturnos. Apenas uma dor profunda e persistente sobre o grande trocanter que recusava desaparecer.

A sua maior preocupação? Perder o progresso. “Sempre que descanso, sinto que estou a andar para trás”, desabafou. Numa perspetiva psicossocial, esta frase dizia tudo: a Jessie não estava apenas a lidar com a dor. Estava a lidar com o medo da regressão.

Avaliação Objetiva: Quando a intolerância à carga se junta à dor por compressão

Na observação, verificou-se uma ligeira queda pélvica no apoio unipodal. A palpação sobre os tendões do glúteo médio e mínimo reproduziu a sua dor habitual. Os testes de abdução resistida e FADER (Flexão, Adução e Rotação Externa) foram dolorosos, especialmente quando adicionei compressão. A força do quadril estava diminuída — cerca de 65% em comparação com o lado oposto na dinamometria manual. As tarefas de ponte unipodal e step-down revelaram um ligeiro desvio em adução do quadril e uma inclinação compensatória do tronco.

Diagnósticos diferenciais como a dor referida da coluna lombar e a bursite trocantérica foram excluídos. Os exames de imagem confirmaram mais tarde uma tendinopatia glútea sem rotura total — um caso clássico daquilo que muitos chamam de Síndrome de Dor no Grande Trocanter (SDGT).

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Traçar o Plano: Onde a investigação se cruzou com a prática

Utilizei quatro revisões de pesquisa fundamentais da Physio Network para orientar a estratégia de reabilitação da Jessie. Cada uma ofereceu perspetivas que moldaram o cronograma da sua recuperação e a minha comunicação com ela.

1 – A cinesioterapia continua a reinar supremo

Esta revisão reafirmou algo que sabemos intuitivamente, mas que frequentemente esquecemos: a reabilitação baseada no exercício continua a ser o padrão de ouro para a tendinopatia glútea. Destacou a gestão progressiva da carga, a prevenção da compressão nas fases iniciais e a melhoria da força dos abdutores e do controlo do movimento.

Por isso, em vez de optarmos pelo repouso, reestruturamos o plano em torno de uma “carga inteligente”. “Não estamos a evitar o movimento, Jessie. Estamos a escolher os movimentos certos, no momento certo.”

2 – Considerações hormonais e específicas do sexo

Esta revisão aprofundou a minha sensibilidade em relação ao contexto da atleta feminina de meia-idade. A renovação do colagénio tendinoso, as transições hormonais e a capacidade de carga podem sofrer alterações subtis em mulheres por volta dos 50 anos.
A mensagem? A reabilitação deve respeitar a fisiologia, e não lutar contra ela.

Discutimos o ajuste do seu volume de treino e a otimização da recuperação, incluindo a ingestão adequada de proteínas e a higiene do sono. A pesquisa ajudou-me a normalizar um ritmo de cicatrização mais lento do que o esperado, encarando-o não como um fracasso, mas sim como biologia. O exercício e a educação foram recomendados nesta revisão como tratamento de primeira linha para as tendinopatias do quadril.

3 – A mente importa: Fatores psicológicos na dor lateral crónica do quadril

Esta revisão examinou as barreiras psicológicas: o medo do movimento (cinesiofobia), a catastrofização e a frustração, todos eles comuns em tendinopatias persistentes. Refere que existe uma discrepância entre a gravidade da condição e a forma como os sintomas se manifestam. O nosso tratamento não deve focar-se apenas na estrutura lesionada, mas também ter em consideração os restantes domínios relacionados com a saúde.

A ansiedade da Jessie em relação à “perda de força” correspondia exatamente a esse perfil. Integrei princípios de exposição gradual, reintroduzindo lentamente os movimentos que ela temia (como as lunges e a corrida). Também utilizámos um modelo de monitorização da dor: uma dor inferior ou igual a 3/10 durante o exercício, que regressasse aos valores de base no dia seguinte, era considerada aceitável. Encarar a dor como “informação, e não como perigo” ajudou-a a manter-se empenhada e autónoma no seu processo.

«Não está a partir nada, Jessie; está a treinar o seu tendão para que ele volte a confiar em si.»

4 – Prognóstico e expetativas do doente na recuperação tendinosa

Esta revisão forneceu uma mensagem muito importante: a gravidade da dor e a incapacidade funcional estavam associadas ao stress psicológico e à qualidade de vida. Esta associação revelou-se mais forte do que a da força dos abdutores do quadril.

Isto ajudou-me a focar nos prazos de recuperação e na comunicação do prognóstico com a doente. A maioria das recuperações de tendinopatias demora entre 3 a 6 meses, estendendo-se algumas até aos 12 meses. O principal preditor do resultado? A consistência, e não a intensidade. Esta revisão destaca o facto de que a abordagem de “basta aplicar carga” pode ser contraproducente se o processo de reabilitação não levar em consideração estes fatores psicológicos e se o doente não for devidamente orientado para alcançar os seus objetivos.

Isto permitiu-me alinhar as expetativas da Jessie logo de início: “Não vamos resolver isto em poucas semanas. Estamos a construir durabilidade para os próximos anos.” Esta abordagem mudou a mentalidade dela, deixando de procurar uma solução rápida para passar a abraçar um processo progressivo e sustentável.

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A Reabilitação em Ação: Transformar a investigação em resultados reais

Fase 1 – Acalmar o tendão (semanas 0 a 4)
Objetivos: Reduzir a dor, minimizar a carga de compressão e iniciar exercícios isométricos controlados.

  • Educação: Instruções para evitar a adução sustentada do quadril (não cruzar as pernas, dormir de lado com uma almofada entre os joelhos).
  • Isometria: Exercícios isométricos em abdução (30 a 45 segundos × 6 a 8 repetições) para manter a carga no tendão sem agravação dos sintomas.
  • Exercícios: Pontes, clams (clamshell) e abdução com banda elástica a baixa intensidade.
  • Alternativas cardiovasculares: Ciclismo ou ergómetro de braços para manutenção da condição física.

Ela aprendeu que estar sem dor não significava “ausência de carga” – significava “boa carga”.
Por volta da quarta semana, a dor noturna tinha diminuído e ela já conseguia manter o apoio unipodal durante 45 segundos sem se queixar ou evidências de dor.

Fase 2 – Aplicar carga para recuperar (semanas 4 a 12)
Objetivos: Progressão da carga de tração, melhoria da capacidade dos abdutores e reposição do controlo funcional.

  • Transição dos exercícios isométricos para o fortalecimento isotónico lento (abdução em decúbito lateral, ponte unipodal).
  • Introdução de exercícios de abdução do quadril com componente excêntrica e exercícios de step-down.
  • Integração do fortalecimento do grande glúteo para aliviar a carga sobre os estabilizadores laterais.
  • Reeducação do movimento para a marcha e para a mecânica do agachamento, reduzindo o desvio em adução do quadril.

Por volta da oitava semana, a Jessie já não tinha dor no seu dia a dia e iniciou exercícios de corrida parcial. À décima segunda semana, a sua força de abdução do quadril apresentava-se simétrica, com uma diferença inferior a 10%.

Fase 3 – Desenvolver a robustez (meses 3 a 6)
Objetivos: Regresso à corrida e ao treino de força total, sem medos nem crises de dor.

  • Intervalos de corrida-caminhada progressivos: Início com 1 minuto de corrida para 2 minutos de caminhada, progredindo até 20 minutos de corrida contínua.
  • Progressões pliométricas: Saltos consecutivos, pequenos saltos laterais e subidas para o step com resistência.
  • Reintrodução de exercícios de ginásio: Agachamentos com carga, peso morto (deadlifts) e ladeamentos (lateral lunges).
  • Monitorização da dor: Avaliações semanais para ajustar a carga.

Ao sexto mês, a Jessie já corria o seu volume habitual de quilómetros e enviou-me orgulhosamente uma fotografia a meio da passada com a legenda: “Zero dor. 100% atitude.”

 

Conclusão

O caso da Jessie lembrou-me de algo simples, mas profundo: nós não tratamos apenas tendões; nós orientamos sistemas nervosos, crenças e estilos de vida.

A investigação deu-me a estrutura — com a progressão de carga, os limiares de dor e os prazos. A Jessie deu-me a lição: o progresso raramente é linear, e a empatia acelera a recuperação tanto quanto o exercício.

Quando terminou o tratamento, ela disse: “Não recuperei apenas o meu quadril. Recuperei a minha confiança.”
E isso, para mim, é a verdadeira definição do encontro entre a ciência e a humanidade.

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